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Covid19

18/03/2020 - Artigo Arquivo Público de Uberaba - GRIPE ESPANHOLA EM UBERABA EM 1918

A gripe atingiu toda a humanidade e seu contágio aconteceu em duas ondas. A primeira (até a metade de 1918) teve efeitos “pequenos”, mas, na segunda (final de 1918), depois de sofrer uma mutação, sua agressividade tornou-se perturbadora: a velocidade com que se alastrou e os estragos causados se mostraram sem equivalentes na história – nunca a guerra, catástrofe ou epidemia tinha feito tantas vítimas em tão pouco tempo. A gripe espanhola foi implacável e universal

 

      Em fevereiro de 1918, a cidade de San Sebastián, na Espanha, foi infestada pela influenza e, diferentemente de outros países envolvidos na Primeira Guerra, que censuravam essas informações, na Espanha as notícias foram amplamente difundidas. Os países beligerantes não permitiam a sua divulgação, tentando evitar o caos nas fileiras dos exércitos. Geralmente, os governos atribuíam o nome da doença a outras nacionalidades. Quando a sífilis apareceu na Idade Média, os franceses chamavam-na de "mal napolitano" e os italianos, de "mal francês".

      Antes do desembarque do vírus no Brasil, a Marinha, que se empregava na guerra, já contabilizava altíssimo número de mortes. A gripe teria infectado 90% dos 1.500 tripulantes, causando a morte de 125 marinheiros.

     No Brasil, acreditava-se que o vírus teria chegado por meio do navio inglês Demerara, atracado em Recife, em 1918. O grande contingente imigratório que o Brasil recebia também é indicado como responsável pelo alastramento da gripe. As causas que teriam favorecido o surto epidêmico ainda são confusas e parecem estar longe de ser apontadas de forma definitiva.

    Sabe-se que muitas cidades viraram, da noite para o dia, cidades fantasmas, como é o caso de Campinas/SP, que praticamente sumiu do mapa naquele mesmo ano, de acordo com a historiadora Liane Maria Bertucci, professora de História da Educação na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autora do livro: "Influenza, a medicina enferma" (Ed. Unicamp, 2004).

      Em Uberaba, os efeitos também foram devastadores. A única empresa funerária entrou em colapso por causa da demanda de sepultamentos, sendo que as urnas funerárias passaram a ser produzidas artesanalmente pela própria população que se responsabilizava por enterrar os mortos. Os doentes da zona rural eram conduzidos em redes, por parentes ou amigos, à procura de atendimento médico. Algumas pessoas contaminadas eram deixadas às margens das estradas rurais, ainda vivas, para serem enterradas no dia seguinte, depois do falecimento.

      O tempo de duração da pandemia foi curto, mas suficiente para trazer o sentimento de luto na maioria das famílias. Conforme se pode observar pela leitura do Livro de Registro de Sepultamentos do Cemitério São João Batista de Uberaba, pertencente ao acervo da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba, depois de um início tímido no mês de outubro, com apenas dois casos, atingiu o apogeu no mês de novembro, com 285 óbitos e as últimas pessoas contaminadas apareceram no mês de dezembro de 1918.

Livro de Sepultamento da Câmara Municipal de Uberaba de meados de novembro de 1918.  Nov. 1918. p. 129.

Amostra do livro de Sepultamento da Câmara Municipal de Uberaba de meados de novembro de 1918. Observa-se o intenso número de mortes identificados como Gripe. Também foram constatadas mortes por Broncopneumonia e sem assistência médica (causas não identificadas). Fonte: Acervo da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.

Nov. 1918. p. 130. 

                        

        Segundo o cronista do jornal Lavoura e Comércio, Uberaba virou um enorme hospital devido ao número exagerado de enfermos: 2/3 da população da cidade - aproximadamente 10 mil pessoas, sendo que apenas 30% teriam escapado do contágio. As ruas se transformaram num deserto pela absoluta falta de vida comercial e social:

 

Notadamente as ruas ficaram desertas. Desertas as confeitarias e clubs, tendo-se até fechado dezoito casas commerciaes nas principaes ruas. Algumas pharmacias figuram entre essas casas.  (Lavoura e Comércio, 20 de outubro de 1918. p.3).

 

     A Câmara Municipal de Uberaba instalou postos de socorro (sic) no centro da cidade, forneceu remédios e nomeou o médico Álvaro Caldeira para o cargo de delegado de Higiene Municipal (cargo equivalente a médico sanitarista), que lançou um boletim à população com as seguintes advertências:

 

Medidas preventivas contra a grippe hespanhola:

(...) 2º Evitar o contato das pessoas em cujo domicílio houver casos de grippe; não receber visitas em caso de doenças, sinão depois do diagnóstico médico; não permanecer em logares em que haja agglomeração (theatros, cinemas, etc.); evitar resfriamentos, que são a porta aberta à infecção.

3º Friccionar o corpo com toalha felpuda, embebida ou não em alcool de 40 gráus, caso se esteja com as roupas ou pés molhados, lavar frequentemente as mãos com agua e sabão, esfregando-as antes das refeições, com alcool, quando possivel.

4º Não comer frutas verdes, nem dar às creanças ballas coloridas ou doces indigestos, evitar perturbações gastricas e toda sorte de excessos ou fadigas; não usar de verduras, sinão depois de bem lavados.

5º Usar gargarejos com aguas oxygenada (diluída em parte egual de aguar fervida), com agua salgada (1 colhar de chá de sal de cozinha para meio copo d'agua fervida), com agua salgada (1 colher de chá de sal de cozinha para meio copo d'agua fervida), com cozimento de folhas de goiabeira ou ainda com succo de limão (o succo de um limão misturado em meio copo d'agua fervida); as pessoas abastadas poderão usar, de preferencia, o seguinte colluctorio: Titura de iodo -2gr; Menthol -20 centígramas, Clycerina - 20 gras.

6º Applicar no nariz, pela manhã e à tarde, algumas gottas de glycerina com menthol e goomenol ou aspirol, acido borico mentholado (...) (Lavoura e Comércio, 28 de novembro de 1918)

 

      No dia 20 de dezembro surgiram os últimos casos com o diagnóstico de gripe. O historiador que se debruçar sobre o assunto poderá verificar que a sociedade não se omitiu diante da tragédia. As pessoas se mobilizaram e, mesmo com as limitações típicas do período, arregaçaram as mangas e evitaram que a proliferação fosse mais contundente. Com o fim do problema, o registro do jornal revelou a importância da mobilização da população e o luto nesse período funesto da história local.

 

Referencial bibliográfico:

BERTUCCI, Liane Maria; Influenza, a medicina enferma; Ed. Unicamp.

 

Fontes consultadas:

Jornal: Lavoura e Comércio, Uberaba, outubro e novembro de 1918. Acervo: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba

Livro: Registro de Sepultamentos de Uberaba, 1911 A 1930. Acervo: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.

 

Jorge Alberto Nabut

Historiador e Superintendente do Arquivo Público de Uberaba

 

Luiz Henrique Cellurale

Historiador

 

 
 
 

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